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sábado, outubro 4

Um redondo não

ou: cansa-me que isto seja uma "questão"

Não se trata de defender a instituição caduca(da) do casamento - idealmente, é figura a abater; não interessa quantos casais homossexuais vão casar, mudando a lei; nem há qualquer incoerência no facto de se defender a igualdade no acesso ao casamento civil e não querer, para si, que o estado medeie as suas relações afectivas. Não se complique: a lei define cidadãos e cidadãs de segunda; legitima a discriminação - apesar de termos a única constituição na Europa que proíbe a discriminação em função da orientação sexual. A questão é simples: "Concorda que a merda do seu país continue a não reconhecer direitos iguais a parte da sua população?". E a resposta mais simples é.

quinta-feira, setembro 4

Espaço ao sobrenatural (uma rubrica ficcional)™



MFL, ciente da importância e urgência do tema, já respondeu:

"Eu não sou suficientemente retrógrada para ser contra gajos espancarem as suas mulheres. Aceito. São opções de cada um, é um problema de liberdade individual, sobre a qual não me pronuncio".

E continuou: "Pronuncio-me, sim, sobre o tentar atribuir o mesmo estatuto daquele que é um ser para ser espancado, perdão, educado igualmente ao estatuto daquele que é o ser dotado de inteligência superior que pode e deve recorrer à violência para exercer o seu legítimo poder".
"Admito que esteja a fazer uma discriminação porque é uma situação que não é igual. A sociedade está organizada e atribui aos homens um determinado tipo de privilégios, tem determinado tipo de regalias e de medidas fiscais no sentido de promover a família heterossexual e do seu chefe, até porque numa família homossexual como é que sabemos qual dxs gajxs é o homem e qual é a mulher? Fica tudo muito confuso", concluiu.

Quem canta consente (13)




(...) you find your demon's your best friend (...)

Justin Bond and the Hungry Marching Band
"In the end"

(do filme "shortbus")

quarta-feira, setembro 3

E foram felizes para sempre

Queridas cuscas e cuscas das cuscas,
Preciso da vossa sábia ajuda para resolver uma pequenina questão. Claro que não é uma questão minha. Não! Nada disso. É a questão, digamos… de uma amiga.

Prólogo
Essa amiga tem um amigo desde a adolescência, com quem partilhou muitas descobertas dessa empolada fase de vida; desde a passarem férias juntos, a dar um pé de dança aos fins-de-semana, a deixarem-se atropelar pela bebida, a conversar, a encontrarem-se todos os dias no café da terrinha – que mais parecia a sala de estar das casas de cada pessoa daquele grupo de amigos – ou a ter jantares de casais [pois, esqueci-me desta parte: ele começou a namorar com uma rapariga e ela com outro rapaz]. Continuavam a encontrar-se, em grupo, a jantar juntos, a estar no café, dar uns mergulhos juntos no verão and so on.
Nunca falaram daquele verão em que uma espécie de atracção parecia meter-se entre os dois. Sempre souberam que era fruto de verão e, contraditoriamente, verde – não passaria daquilo, nem tinham realmente vontade de saber se passaria daquilo. O fruto apodreceu. Já não se lembrava(m) dele. Ela (a minha amiga, não se esqueçam) e a namorada do amigo (designação possível, já que a dita bem pode ler este blogue ou ter agentes infiltradas) davam-se bem. Sem grandes cumplicidades (que nada tinham que ver com ele), mas sentiam-se confortáveis na partilha da mesa do café ou de um jantar (um deles chegou, até, a ser em casa da tal namorada). Ela (ainda a minha amiga) deixou de namorar e, milagre dos milagres, parece ter-se transformado num monstro que criava na namorada do tal rapaz um igual monstro, mas amarelo [hum... espero que amarelo faça lembrar ciúme; bem, elas percebem]. À minha amiga, as coisas costumam passar-lhe ao lado. Dizem que é distraída; eu digo que deve ter mecanismos de defesa bem afinados e não chega a aperceber-se porque o que não lhe interessa é recalcado. Continuaram, então, a encontrar-se esporadicamente. A minha amiga notava qualquer coisa de murcho no tom do rapaz – logo ele que costumava ser exuberante e estridente – mas achou que era só naquele dia. O que não se apercebeu foi que aquele dia estava a ser todos os dias, desde há algum tempo.
Certo dia, ouviu a minha amiga dizer, ele e a namorada iam casar. Ela - a minha amiga - perguntou ao rapaz, na tal distracção que a caracteriza, se era verdade (sim, ela achava que não sabia porque podia não haver casamento marcado ou, a haver, ainda não havia convites oficiais). Ele disse que sim, num tom notoriamente mais discreto do que lhe era característico. Ela ficou admirada – ele nunca havia falado em casamento ou, a falar, fazia-o num tom de troça e de coisa-distante. Meses depois, ela (sim, a minha amiga) soube que todas as amigas do grupo (mesmo aquelas com quem a noiva não ia jantar, nem partilhava mesa de café, nem nem) tinham sido convidadas. A minha amiga – que mesmo a distracção tem os seus limites – “caiu em si”: não ia ser convidada para o casamento do amigo.


Vamos ao que interessa
Bem, a minha amiga sentiu-se um bocado estúpida: por ter perguntado se iam casar (quando eles já sabiam que não a iam convidar), por ter tentado fazer conversa com a rapariga, a ver como corria o início da vida profissional da noiva [gosto da palavra noiva! ]… enfim, sentiu-se estúpida não por não ter sido convidada (esse adjectivo era para o noivo – ele é que era seu amigo), mas por não se ter apercebido disso mais cedo e por, até se aperceber, continuar a agir da mesma forma com os dois. Agora, o que é que ela pode fazer – e aqui entram vocês:


  • Enviar um naperon bem piroso, como prenda de casamento, e um cartão todo meloso e com desejos de felicidades para eles?
  • Enviar umas algemas com pelinho cor-de-rosa, com um cartão a dizer "porque sei que gostas, querido X e porque, querida Y, também pareces gostar de o ter bem seguro"?
  • Aparecer na igreja, em trajes de fazer o vestido da noiva corar?
  • Dizer à noiva que sente uma especial e incontrolável atracção por homens casados?

Ajudem lá nos delírios da minha amiga e digam, se fosse convosco – ou com uma amiga vossa ;) – o que vos apeteceria fazer?

Imagem: Ray Caesar

segunda-feira, agosto 25

Absolutamente outro

Entrevista ao psicoterapeuta brasileiro Flávio Gikovate, na Sábado (n.º225).

(...) No seu último livro afirma que o amor romântico tem os dias contados. Porquê?

Porque o mundo mudou. O amor romântico - ciumento, opressivo e sufocante - já não tem hipóteses porque é incompatível com o desejo crescente do individualismo. Aos poucos, as pessoas estão a reconhecer que o amor tradicional é imaturo e desgastante. No mundo moderno, em que há muitas actividades interessantes e individuais, o amor como remédio não funciona. Este amor vai sendo substituído por outra qualidade de relação.

Quando é que chegou a essa conclusão?
Trabalho com essa hipótese há muitos anos, mas só agora consegui colocá-la num livro de maneira completa. Muitos casamentos entre opostos, com a ideia de fusão, ainda vão acontecer antes que as pessoas se dêem conta que já não dá para insistir nesse tipo de relacionamento. Antes, o amor ganhava à individualidade porque não havia o que fazer com a individualidade. (...) a individualidade é tão preciosa que ninguém quer (e não deve) abrir mão dela para viver com alguém.

Diz aos seus pacientes que, entre o amor e a individualidade, devem optar pela segunda?
Sim. (...) A mulher tornou-se independente económica e sexualmente e põs fim à estabilidade conjugal. Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado está para uma boa relação afectiva.

Então os solteiros são mais felizes?
São mais felizes que os mal casados. Antigamente havia um enorme preconceito em relação às pessoas solteiras, sobretudo as mulheres, as "encalhadas". Hoje, sem esses preconceitos, o mundo é mais favorável aos solteiros. (...) As boas relações afectivas são parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem.

Como define "mal casados"?
É uma relação entre opostos, um egoísta e um generoso. Essa relação é a que mais acontece porque está no imaginário das pessoas há séculos. No entanto, é muito perigoso depender de "terceiros" para ser feliz. Quando um dos dois se apercebe que não encontrará no outro aquilo que procura, a separação é inevitável, porque no amor dito romântico responsabilizamos o outro pelo nosso bem-estar (...).

Então, com o fim do amor romântico, as pessoas vão passar a fazer sexo de ocasião?
Não necessariamente. (...) O meu livro tem dois finais: um é ficar sozinho; outro, bem acompanhado. (...) Mas a união tem de acontecer entre pessoas semelhantes, com os mesmos planos e projectos, e não entre opostos.

As pessoas casadas são na sua maioria infelizes?
Os divórcios comprovam que o número de pessoas felizes no casamento é cada vez menor. A noção de amor actual revela um sentimento que temos pela pessoa cuja presença provoca em nós a sensação de paz e aconchego que perdemos ao nascer. Desde o nascimento, temos a impressão de ser uma "metade" (...). E assim vamos repetindo a fórmula do início da vida e persistindo no erro. Temos de entender que não somos metade. (...) insitem na ideia do amor romântico, que une duas metades incompletas, o que é um erro.
(...)

Uma pessoa sozinha não tem inevitavelmente momentos em que sofre?
Depende de como entenda a solidão. Se for como no amor romântico, com a sensação de desamparo, sofre. Mas se tiver maturidade emocional haverá um momento em que terá a necessidade do aconchego físico. É preciso conhecer-se a si mesmo e ser capaz de viver sozinho. Depois, procurar alguém com afinidade principalmente de carácter intelectual. Amor significa aconchego físico, amizade é afinidade intelectual. (...) Mas individualismo não é egoísmo. O outro deve ser escolhido por afinidade intelectual, como os amigos. Lealdade, cumplicidade, respeito pelo outro são características de um relacionamento maduro, com qualidade.

Há uma fórmula para ter um casamento feliz?
Não há fórmula, mas um caminho. A união tem de acontecer entre pessoas semelhantes, com os mesmo planos e projectos, e não entre opostos. É o que eu chamo amor. É uma relação mais parecida com a amizade. é a aproximação de duas pessoas inteiras e não de duas metades. Esse é o melhor passo para aprimorar uma relação.
(...)

Há quem diga que são banalidades. Mas por mais comum que seja, é-o sempre menos que outras banalidades: precisamente as do amor romântico. Essas preenchem prateleiras das livrarias, salas de cinema, músicas e histórias para adormecer. É, por isso, sempre bom ler sobre modelos alternativos que ora não sabemos que existem, ora tudo à volta faz questão de dizer que não devem existir. Depois de rever a Ally McBeal - no seu incurável romantismo - sabe bem voltar à realidade.

Imagem: "Snow White swallows the poison", Paula Rego

Literalmente ou...

... uma espécie de vingançazinha pela dívida de uma certa fotografia. Essa sim, literal [piscadela de olho].






Caminhavam juntos pela cidade. Ela incerta, resultado de uns saltos altos que se atreveu a usar - tinha-se esquecido já de como era. Ele veloz, indiferente aos gemidos queixosos da calçada ao toque dos saltos. A ela só lhe ocorreu pensar: never date a guy who is unable to put himself in your shoes.

quarta-feira, outubro 17

ESTUDO APONTA QUE FEMINISTAS TÊM RELACIONAMENTOS MAIS ESTÁVEIS

As feministas são as candidatas ideais para um relacionamento estável e duradouro, segundo demonstrou uma pesquisa da universidade norte-americana Rutgers, publicada pela revista Sex Roles. O estudo analisou mais de quinhentos homens e mulheres norte-americanos entre 18 e 60 anos, aos quais foram feitas perguntas sobre a qualidade de seu relacionamento e sobre a percepção do feminismo próprio e do parceiro, com respostas que variavam de "pouco satisfeito" a "extremamente satisfeito". O resultado revelou que não só as feministas declararam ter relacionamentos mais saudáveis que as não-feministas, mas também seus parceiros disseram ter relações mais estáveis. "Os nossos resultados indicam claramente que os conceitos negativos sobre o feminismo são equivocados, e que sua influência no relacionamento de casais é na realidade positiva", disseram Laurie Rudman e Julie Phelan, autoras da pesquisa.

Notícia da Agência
ANSA

Resta saber o que entendem por feministas, não-feministas e relacionamentos saudáveis. Mas, à primeira vista, parece-me um excelente contributo ao questionamento dos estereótipos. Não?

segunda-feira, outubro 1

Reflexões

«Uma etapa da sua vida terminara e uma outra se abria, uma verdade descoberta com o corpo, à medida do seu corpo despido de mitos, cumprido, experimentado, só de experiência e de verdade feito - a força que havia no amor, numa relação de solidariedade e não de supremacia nem domínio, as pessoas reciprocamente apoiando-se, trabalhando juntas para um mesmo fim. Um outro universo, um outro imaginário. Nada mais me sufoca nem bloqueia, podem contar comigo para ajudar a construir o mundo - a casa aberta aos outros, um lugar de encontro, de troca, de discussão, de refúgio, de permuta, sempre alguém chegando, sempre uma roda de amigos debaixo dos guarda-sóis, trabalhando, trazendo num tabuleiro chávenas de café e uma cafeteira fumegante, sempre alguém utilizando a garagem como um atelier provisório, os alunos de Horácio que vinham à noite, carregados de livros e perguntas, uma casa viva onde cada um encontrava o seu espaço.»


Teolinda Gersão
in Paisagem com Mulher e Mar ao Fundo


Imagem: Chema Madoz
Mais sobre a escritora, aqui.

terça-feira, setembro 11

Carta aberta a suposições

Queridas cuscas,

Suponham que começam um novo trabalho e que ele implica partilhar tarefas com outra pessoa. Suponham, então, que começam um novo trabalho e que ele implica partilhar tarefas com um homem. Suponham, mais uma vez, que esse homem, está convosco quase tanto tempo quanto o que passam convosco próprias.

Suponham que o homem com quem trabalham horas a fio é daqueles por quem se sente uma empatia imediata. Suponham que a empatia é rirem-se a bandeiras despregadas. Suponham que essa empatia é ressalvar o que cada um tem de melhor. Suponham que, às tantas, passam ainda mais tempo com esse homem e que no dia em que não estão juntos ele vos liga a perguntar como foi o trabalho. Suponham que vocês acham atencioso tal gesto. Suponham que retribuem. Suponham que a atracção é tudo menos física, mas não é bem intelectual. Suponham, então, que simplesmente gostam da companhia. Suponham que acham que, da outra parte, o mesmo – e só o mesmo – acontece.

Agora deixem de supor. Ele convida-vos para irem ao cinema. Vocês, supõem, que não há nada de estranho no convite. Afinal, o trabalho é ao lado do cinema. Continuem sem supor, vocês declinam o convite. E ficam a supor que a suposição de que nada haveria para supor, não deve ser assim tão linear. E começam a supor que há algo a mais do que vontade de ver um filme.

Suponham que esse homem – aquele que trabalha convosco, com quem têm empatia, com quem gostam de estar, por quem não sentem atracção e que vos convida para ir ao cinema, usa uma aliança na mão direita. Suponham que vos pergunta, de aliança na mão, se têm namorado. Suponham que vos diz que, assim sendo, já não vos convida mais para ir ao cinema porque não suporta rejeição. Suponham que esse homem que não suporta rejeição, pergunta, num almoço com mais dez pessoas, se elas acham que aceitar um não é sinal de esperteza ou de falta de persistência. Suponham que se desmancham a rir por saberem que só vocês e o homem da aliança estão a perceber o que realmente se diz.

Suponham que - persistente e com falta de esperteza - ele insinua que vos paga o café em dívida, depois do jantar. Suponham que o trabalho termina antes do jantar. Vocês riem. E ficam a supor se aquilo que ele supõe é evidência de que ele não percebeu o que vocês supuseram.

Suponham que estão tão confusas como as frases deste texto. Suponham que não sabem se se devem deixar de suposições e dizer: eu não quero mais do que ser tua amiga. Ou se devem continuar a supor que, qualquer dia – e esperam que seja já amanhã – ele se deixe de suposições.

Agora deixem de supor outra vez. O que supõem?

Imagem: Robert& Shana ParkeHarrison

quarta-feira, julho 11

Courrier Blogosférico


«Partir para uma relação com ideias feitas pode tornar cegos os casais mais bem intencionados.

A terapeuta de casal Gabriela Moita aponta algumas:

1. Síndrome da "bola de cristal" ("Se gostasses de mim, adivinharias o que fazer sem eu ter de to dizer")
2. Estar sempre de acordo ("Se gostasses de mim, farias o que te pedisse")
3. À prova de infidelidade ("um affair é o fim do casamento")
4. Estado de paixão constante ("Sexo sem atmosfera especial não faz sentido")
5. Primado da amizade ("O meu melhor amigo é o cônjuge")

Estas crenças podem transformar-se em fasquias demasiado elevadas que, na melhor das hipóteses, tendem a criar ansiedade conjugal e sentimentos de frustração.»

Excerto de uma peça ("Os nós e os laços do amor") de Clara Soares, publicada na Revista Máxima

PS: Pois eu gostava muito de exercitar os antípodas destes conceitos alienígenas. Por exemplo: "Se às vezes não gostasses de mim, eu não te levava a mal"
Isabel Freire, no Sexualidade Feminina

sexta-feira, junho 22

My Girl

You gaze at her from across the room and think how beautiful she is. You are sure there is no-one else like her. The thought of seeing her makes you joyful with expectation. You find yourself thinking of her often and what she said or did is also often the subject of your conversations with others. You would like to introduce her to your family. You can’t believe how lucky you are to have met her. You want to share your life with her; for the two of you to grow old together. And what is more, she is one of the best friends you’ve ever had.

In fact, you are friends. Just friends. And you are two women.


Pablo Picasso, Two Women Running on the Beach


Having recently discovered the word, “bromance”, defined in the latest edition of the Collins English Dictionary as “a close but nonsexual relationship between two men” (i.e. bro[ther] + romance), I wondered about a similar term for women – and so: womance! Certainly, the feelings I have for my “girl-friends” sometimes border on infatuation; and there is an intimacy between us that can be incredibly tender and intense (without being about sex/sexual orientation) – very, very womantic…


So, if you’re in the mood for spraying on your favourite perfume, putting on your little black dress, and having a candle-lit dinner over a glass of champagne, get together with your girlfriend(s) and celebrate your true womance!