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sexta-feira, outubro 31

Ausências*

Estudar, teorizar, investigar, fazer acções de rua, participar em conferências, debater, estar em tertúlias, apresentar comunicações, preparar comunicações, dar formação e ter as "questões feministas" subjacentes, desmistificar conceitos, questionar estereótipos.
Fazer os feminismos, assim, é de um gozo e desafio tremendos, com impactos visíveis, é certo. Mas tudo se redimensiona quando comparado com uma mulher "crescer", gostar mais de si ou chorar porque se descobre; tudo se reconfigura quando comparado com mulheres vítimas de violência doméstica a dizerem que se sentiram, ali, serenas.
Porque as cusquices se vão fazendo na rua, em aldeolas esquecidas, com mulheres esquecidas de si entre imensidões de filhos, maridos violentos ou ausentes, trabalhos dobrados, mas nem por isso pagos, ou entre palavras que não sabem escrever, os dias tornam-se impostáveis. No além virtual, sugam-se as palavras.
Sobra silêncio.
*ou retornos

terça-feira, setembro 16

Da caixa de e-mail








Adenda:

Tenho de confessar o meu lado conservador. Há clássicos que, como uma interrupção da cadeia, queremos manter:


segunda-feira, agosto 25

Absolutamente outro

Entrevista ao psicoterapeuta brasileiro Flávio Gikovate, na Sábado (n.º225).

(...) No seu último livro afirma que o amor romântico tem os dias contados. Porquê?

Porque o mundo mudou. O amor romântico - ciumento, opressivo e sufocante - já não tem hipóteses porque é incompatível com o desejo crescente do individualismo. Aos poucos, as pessoas estão a reconhecer que o amor tradicional é imaturo e desgastante. No mundo moderno, em que há muitas actividades interessantes e individuais, o amor como remédio não funciona. Este amor vai sendo substituído por outra qualidade de relação.

Quando é que chegou a essa conclusão?
Trabalho com essa hipótese há muitos anos, mas só agora consegui colocá-la num livro de maneira completa. Muitos casamentos entre opostos, com a ideia de fusão, ainda vão acontecer antes que as pessoas se dêem conta que já não dá para insistir nesse tipo de relacionamento. Antes, o amor ganhava à individualidade porque não havia o que fazer com a individualidade. (...) a individualidade é tão preciosa que ninguém quer (e não deve) abrir mão dela para viver com alguém.

Diz aos seus pacientes que, entre o amor e a individualidade, devem optar pela segunda?
Sim. (...) A mulher tornou-se independente económica e sexualmente e põs fim à estabilidade conjugal. Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado está para uma boa relação afectiva.

Então os solteiros são mais felizes?
São mais felizes que os mal casados. Antigamente havia um enorme preconceito em relação às pessoas solteiras, sobretudo as mulheres, as "encalhadas". Hoje, sem esses preconceitos, o mundo é mais favorável aos solteiros. (...) As boas relações afectivas são parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem.

Como define "mal casados"?
É uma relação entre opostos, um egoísta e um generoso. Essa relação é a que mais acontece porque está no imaginário das pessoas há séculos. No entanto, é muito perigoso depender de "terceiros" para ser feliz. Quando um dos dois se apercebe que não encontrará no outro aquilo que procura, a separação é inevitável, porque no amor dito romântico responsabilizamos o outro pelo nosso bem-estar (...).

Então, com o fim do amor romântico, as pessoas vão passar a fazer sexo de ocasião?
Não necessariamente. (...) O meu livro tem dois finais: um é ficar sozinho; outro, bem acompanhado. (...) Mas a união tem de acontecer entre pessoas semelhantes, com os mesmos planos e projectos, e não entre opostos.

As pessoas casadas são na sua maioria infelizes?
Os divórcios comprovam que o número de pessoas felizes no casamento é cada vez menor. A noção de amor actual revela um sentimento que temos pela pessoa cuja presença provoca em nós a sensação de paz e aconchego que perdemos ao nascer. Desde o nascimento, temos a impressão de ser uma "metade" (...). E assim vamos repetindo a fórmula do início da vida e persistindo no erro. Temos de entender que não somos metade. (...) insitem na ideia do amor romântico, que une duas metades incompletas, o que é um erro.
(...)

Uma pessoa sozinha não tem inevitavelmente momentos em que sofre?
Depende de como entenda a solidão. Se for como no amor romântico, com a sensação de desamparo, sofre. Mas se tiver maturidade emocional haverá um momento em que terá a necessidade do aconchego físico. É preciso conhecer-se a si mesmo e ser capaz de viver sozinho. Depois, procurar alguém com afinidade principalmente de carácter intelectual. Amor significa aconchego físico, amizade é afinidade intelectual. (...) Mas individualismo não é egoísmo. O outro deve ser escolhido por afinidade intelectual, como os amigos. Lealdade, cumplicidade, respeito pelo outro são características de um relacionamento maduro, com qualidade.

Há uma fórmula para ter um casamento feliz?
Não há fórmula, mas um caminho. A união tem de acontecer entre pessoas semelhantes, com os mesmo planos e projectos, e não entre opostos. É o que eu chamo amor. É uma relação mais parecida com a amizade. é a aproximação de duas pessoas inteiras e não de duas metades. Esse é o melhor passo para aprimorar uma relação.
(...)

Há quem diga que são banalidades. Mas por mais comum que seja, é-o sempre menos que outras banalidades: precisamente as do amor romântico. Essas preenchem prateleiras das livrarias, salas de cinema, músicas e histórias para adormecer. É, por isso, sempre bom ler sobre modelos alternativos que ora não sabemos que existem, ora tudo à volta faz questão de dizer que não devem existir. Depois de rever a Ally McBeal - no seu incurável romantismo - sabe bem voltar à realidade.

Imagem: "Snow White swallows the poison", Paula Rego

quarta-feira, agosto 6

Cinderella on Fire

Coitadinhas das crianças que foram obrigadas a assistir a uma cena destas. Shame on you! Confrontar a inocência com este tipo de sujidades sociais... Andam a brincar com os investimentos das pessoas: compra-se bilhetes para coisas destas para que as criancinhas aprendam quem e como amar, para serem para sempre felizes e afinal a coisa sai des-virtuada. Ainda bem que existem pessoas superiores que se revoltam com estas imundices e protegem a inocência e tornam a vida das crianças mais simples.

terça-feira, maio 13

"UMAR-te assim perdidamente" ou... a Caminho do Congresso feminista 2008

12 de Maio_Pulsos de Ferro

Hoje, a luta não é apenas pela conquista, mas também pela conservação dos nossos direitos

Na convicção que o conhecimento da historiografia é um trajecto emancipatório, o ciclo de cinema “UMAR-te assim perdidamente” inaugurou sete dias de fimes e debates com a exibição de “Pulsos de Ferro” (Iron Jewad Angels, de Katja von Garnier) que retrata a luta das sufragistas norte-americanas pelo direito ao voto.

Focando-se na forma como as activistas Alice Paul e Lucy Burns desafiaram as fronteiras políticas -criando uma ala radical que as demarcaria do restante movimento sufragista -“Pulsos de Ferro” culmina com a conquista do direito ao voto em 1920.

Fazendo a ponte com a situação vivida em Portugal, durante o Estado Novo e imediatamente a seguir à revolução de Abril, Irene Pimentel e Fina d’Armada conduziram, num tom intimista e informal, a viagem pela história, cruzando questões de desigualdade social, económica e política dos sexos.

A história foi mote para pensar e debater os movimentos sociais e a situação presente de muitas mulheres, sublinhando-se a forma como a desigualdade entre mulheres e homens é hoje sub-repticiamente mantida e reforçada.

Porque o tema foi também a difícil gestão do tempo ou a dupla jornada de trabalho a que muitas mulheres estão sujeitas -e porque a noite ia longa- a conversa terminou na certeza de que uma luta, por ser antiga, não se pode dizer obsoleta.

(clicar na imagem para aumentar)

segunda-feira, abril 14

Elas gostam é dos que as tratam mal

No café, às 9h da manhã, numa vila perto do Porto:

- Home qué de manteiga derrete!
- Coitadinho…
- É assim. Ai é assim: todos os homens que as põe num pedestal elas põe-nos a andar. Ai é assim!
- Coitadinho…
- Faz tudo o quelas quer, depois derrete!
- Coitadinho…
- Eles num tinham filhos. Ele dependia dela pra tudo! “Ai que eu preciso emagrecer” e lá vinha a mulher fazê-lo emagrecer…
- Coitadinho…
- A dizer marabilhas dela; que é muito boa nisto e que gostum muito daquilo e mais aqueloutro… na! Depois elas deixum-nos, claro! até pensei pr’a mim “o meu home num debe gostar nem um esquinho de mim nem nada!”
Terceira pessoa: ah, não se preocupe mulher queles dizem; dizem, dizem! Só que não é à nossa frente.
- Pois, mas o problema tá aí! Ele dizia isso tudo à frente dela! Trataba-na bem demais. Era… bem demais!
Terceira pessoa: Olhe, mais vale ser muito bom para ela e ela deixá-lo que andar a tratá-la mal e ela deixá-lo. Assim só sofre um.
- Coitadinho… Mas ao menos tem uma razão!
- Nem tanto ao mar nem tanto à terra!
- Coitadinho…

segunda-feira, outubro 8

Histórias para não adormecer (2)

Há um país, próximo da Europa (…) chamado Scythie ou terra dos Scythes. Aconteceu que, no decurso de uma guerra, todos os homens deste país pereceram. Quando as mulheres souberam, (…) encheram-se de coragem e convocaram um conselho de mulheres, resolvendo que, doravante, elas mesmas liderariam o país, livres do controlo dos homens. Emitiram um édito que proibia a entrada de qualquer homem no seu território, mas decidiram que, de forma a assegurar a sobrevivência da raça, iriam acasalar aos países vizinhos (…). Se dessem à luz um rapaz, este seria enviado para viver com o pai, mas raparigas criá-las-iam. (…) Em seguida, todas elas, mulheres e jovens, pegaram em armas, formaram batalhões e declararam guerra aos seus inimigos (…). Ninguém conseguia resistir-lhes, (…) vingaram bastante bem a morte dos seus maridos.



(…) Ficaram conhecidas como Amazonas, um nome que significa “aquela que sofreu ablação do seio”. Era seu costume, mediante uma técnica conhecida apenas por esta raça de mulheres, que a mais nobre delas tivesse o seio esquerdo removido pelo fogo, de modo a permitir-lhes transportar um escudo. Todas as raparigas que não tivessem nascimento nobre perderiam o seio direito para mais facilmente usarem o arco.

(…) Foram tão bem sucedidas que conquistaram grande parte da Europa e a região da Ásia, subjugando muitos reinos ao seu domínio.


Christine de Pisan
in A Cidade das Mulheres



Christine de Pisan
: Considerada a primeira mulher escritora profissional da Europa; Primeira escritora a defender os direitos das mulheres.

quarta-feira, maio 30

Histórias para não adormecer


Mais uma História da Gata Borralheira


Era uma vez o Príncipe que tinha dormido com a Gata Borralheira. Durante o baile no palácio apeteceu a ambos deixar de dançar e ir para a cama um com o outro. E foram. Mas, à meia-noite, a Gata Borralheira saiu a correr da cama do Príncipe e esqueceu-se do soutien atrás de si.

O Príncipe não gostava do seu antepassado que tinha obrigado todas as mulheres do principado a descalçar o pé direito ou o esquerdo. O Príncipe não se lembrava ou a história era omissa quanto a ser o pé esquerdo ou o pé direito. Achava uma atitude grosseira, arrogante, pornográfica, de mau gosto.

Então o Príncipe para encontrar a gata borralheira não obrigou todas as mulheres do principado a despirem-se diante dele e a calçar o soutien. Meteu o soutien na gaveta das recordações e decidiu fazer amor com todas, uma por uma, velhas e novas, feias e bonitas, aleijadas e não aleijadas. E foi fazendo.

Quando fez amor com a madrasta e com as duas filhas da madrasta, sentiu-se mal. Jurou para nunca mais. Porque as três eram pelintras, chupistas, feias e fidalgas. E isso tudo traduzia-se no calculismo e no fingimento com que faziam amor. O Príncipe chegou a pensar que em vez de pénis tinha um godemichet implantado no baixo ventre de tal modo a madrasta e as três filhas da madrasta o usaram e se serviram dele. Agoniado depois de fazer amor com as três, foi à casa de banho vomitar.

Na casa de banho vomitou. E encontrou a Gata Borralheira a limpar a retrete. Como o Príncipe não foi a tempo de vomitar na retrete, vomitou no chão. A Gata Borralheira limpou o vomitado sem enjoos. Porque o Príncipe e a Gata Borralheira tinham-se reconhecido mutuamente imediatamente. Não foi preciso fazerem amor porque a cumplicidade que os unia era evidente para ambos aos olhos e ao sorriso de ambos.

O Príncipe levou a Gata Borralheira imediatamente para o palácio montados ambos num mesmo cavalo branco. E a madrasta e as duas irmãs suas filhas e irmãs de Gata Borralheira ficaram por entre os vidros e as cortinas danadas e furiosas e sem perceberem nada porque eram as três tão burras que nunca percebiam nada de nada.

O soutien voltou a ser usado algumas vezes pela Gata Borralheira porque a Gata Borralheira era poupada, percebia muito de afrodisíacos e era tão fetichista como o Príncipe.

Adília Lopes
“A Bela Acordada”
in Obra, Edições Mariposa Azul

imagem: Ray Caesar