sábado, dezembro 23

Sim. Razões para votar:

1. Ao votar sim não estás a dizer às mulheres para abortarem.
Estás a dar-lhes ( e a ti – não acontece só aos outros) a oportunidade de tomarem, por si próprias, a decisão. Sem represálias.

2. Ao votar sim não estás a liberalizar o aborto.
Estás apenas a permitir que uma mulher que aborte, até às 10 semanas de gestação do feto, não corra o risco de ser punida pelo estado – despenalizar (tirar a penalização a).


3. Ao votar sim não estás a matar.
Poderás, antes, estar a salvar vidas – sabias que são mais de 60.000 as mulheres que morrem, por ano, aquando de abortos clandestinos?

Estarás a dar a oportunidade de se interromper a gravidez com segurança – física e psicológica.


4. Ao votar não, não estarás a impedir o aborto. Ele não deixará de existir.
Quem tem dinheiro continuará a socorrer-se do país vizinho. Quem não tem, continuará a abortar clandestinamente.


5. Ao votar sim não estás a dizer que o aborto passará a ser um meio anticonceptivo.
Haverá alguém a dizer “vamos lá dar uma queca sem preservativo que depois faço um aborto”?
Ninguém decide abortar de ânimo leve.
Se alguém pondera abortar é porque a gravidez não foi desejada, mas um acidente.

Lembras-te da vez que o preservativo furou?
Lembras-te daquele dia em que te esqueceste de tomar a pílula?


Nesses momentos de azar, se não engravidaste, tiveste sorte. Se não tiveste de colocar a tua vida numa balança para pesar decisões, tiveste sorte.

Outras não têm essa sorte. Não lhes acrescentes outros azares como terem de se sentir (por vezes já o sentem) como criminosas, escondendo-se do “estado” e correndo o risco de morrer.


6. Ao votar sim, estás a permitir que cada mulher decida por si. Que decida sobre o seu corpo. Sobre a sua vida.
Estás a permitir que se decida. Como tu agora tens a possibilidade de decidir como votarás.

segunda-feira, dezembro 11

Mulheres contra mulheres? *

Eles preferem trabalhar com elas porque elas não levantam ondas.
Elas não gostam de trabalhar com elas para não terem sombra.
Eles preferem conviver com eles porque são da malta.
Elas não podem passar sem outras elas; de quem falar mal?

As relações entre eles estabelecem-se naturalmente.
Entre elas as relações são mais difíceis, sendo, frequentemente, caracterizadas como triviais, pouco sinceras, competitivas e com doses de malvadez.

Quais os culpados de tão celebrado estereótipo?

Dividir para Reinar
No que ao papel do homem diz respeito, digamos apenas que este seguiu com afinco – e êxito - a máxima “dividir para reinar”. É que para manter o poder, a ordem masculina precisava impedir que as mulheres se reunissem e formassem alianças; já que quando as relações femininas não são sólidas, as mulheres ficam mais expostas à exploração do homem.

E dividir não foi difícil: bastou encerrá-las na esfera doméstica. Mergulhadas nos círculos repetitivos do quotidiano, as suas conversas giravam em torno dos filhos, da casa, do marido… não tendo como se desenvolver socialmente.

Uma outra chave para manter as mulheres divididas foi levá-las a interiorizar que quando uma mulher conquistava um lugar no mundo (que vinha do reconhecimento e aceitação por parte do homem), outra era excluída. E se só havia espaço para uma…. já se sabe “contra” quem tinham de lutar. Para além disso - há estudos que o indicam – os oprimidos são especialistas em hostilidades para com pessoas vulneráveis como elas. Revoltadas mas impotentes face aos opressores, voltam-se para os seus semelhantes oprimidos. Como se fosse a única catarse possível.

Mas não nos detenhamos no papel do homem.

Reino de Divididas
Se aquilo que até agora foi dito se mantém nos dias de hoje não será somente responsável o homem. O patriarcado** não teria podido manter-se ao longo de milhares de anos sem a cumplicidade das próprias mulheres. É, por isso, importante tomarmos consciência do papel que desempenhamos na manutenção da dominação masculina.

A verdade é que persistimos no erro de considerar que o valor de uma mulher implica a desvalorização de outra mulher. Quando sentimos que uma mulher é aceite e valorizada por um homem, tendemos a enumerar-lhe uma série de defeitos.

Quantas de nós se sentiram ameaçadas quando percebíamos que o grupo de amigos se começava a alargar a outras mulheres? Daí as críticas mordazes às novas figuras femininas que começam a frequentar o NOSSO café.

Quantas de nós caímos na tentação de dizer, perante uma mulher bonita, que era fútil porque cuidava da aparência? Ou que é bonita somente por fora?

Unir para Reinar
Por isso, a verdadeira alavanca da mudança somos nós mesmas, mesmo por quem diz não sentir a descriminação (eu também o dizia há bem pouco tempo), porque basta pensar como seria ser homem por um dia para descobrir as diferenças.

E isto é igualmente válido para as feministas, já que acabam por ser também misóginas (hostilidade face à mulher) para com as que cedem à dominação masculina…

Não reforcemos a inferioridade, que nos atribuíram, com as nossas inseguranças. Deixemos as comparações, as depreciações, a criação de incertezas nas outras mulheres, as avaliações constantes;
Não tenhamos medo de dizer o quanto aquela mulher é inteligente, honesta, divertida, bonita, leal… Saibamos admirar uma mulher!
Saibamos ser essa mulher.

Sem REIno
Saibamos não temer a luminosidade das rainhas singulares para deixarmos, enfim, a sombra do REInado.
Saibamos ser a singular que abdica do choque com outras singulares em proveito de um plural.

Saberemos?


* Título surripiado ao livro de Carmen Alborch
** Patriarcado: forma de organização política, religiosa, económica e social baseada na autoridade e liderança homem; sistema em que predomina o domínio do homem sobre a mulher