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segunda-feira, outubro 8

Histórias para não adormecer (2)

Há um país, próximo da Europa (…) chamado Scythie ou terra dos Scythes. Aconteceu que, no decurso de uma guerra, todos os homens deste país pereceram. Quando as mulheres souberam, (…) encheram-se de coragem e convocaram um conselho de mulheres, resolvendo que, doravante, elas mesmas liderariam o país, livres do controlo dos homens. Emitiram um édito que proibia a entrada de qualquer homem no seu território, mas decidiram que, de forma a assegurar a sobrevivência da raça, iriam acasalar aos países vizinhos (…). Se dessem à luz um rapaz, este seria enviado para viver com o pai, mas raparigas criá-las-iam. (…) Em seguida, todas elas, mulheres e jovens, pegaram em armas, formaram batalhões e declararam guerra aos seus inimigos (…). Ninguém conseguia resistir-lhes, (…) vingaram bastante bem a morte dos seus maridos.



(…) Ficaram conhecidas como Amazonas, um nome que significa “aquela que sofreu ablação do seio”. Era seu costume, mediante uma técnica conhecida apenas por esta raça de mulheres, que a mais nobre delas tivesse o seio esquerdo removido pelo fogo, de modo a permitir-lhes transportar um escudo. Todas as raparigas que não tivessem nascimento nobre perderiam o seio direito para mais facilmente usarem o arco.

(…) Foram tão bem sucedidas que conquistaram grande parte da Europa e a região da Ásia, subjugando muitos reinos ao seu domínio.


Christine de Pisan
in A Cidade das Mulheres



Christine de Pisan
: Considerada a primeira mulher escritora profissional da Europa; Primeira escritora a defender os direitos das mulheres.

quarta-feira, maio 30

Histórias para não adormecer


Mais uma História da Gata Borralheira


Era uma vez o Príncipe que tinha dormido com a Gata Borralheira. Durante o baile no palácio apeteceu a ambos deixar de dançar e ir para a cama um com o outro. E foram. Mas, à meia-noite, a Gata Borralheira saiu a correr da cama do Príncipe e esqueceu-se do soutien atrás de si.

O Príncipe não gostava do seu antepassado que tinha obrigado todas as mulheres do principado a descalçar o pé direito ou o esquerdo. O Príncipe não se lembrava ou a história era omissa quanto a ser o pé esquerdo ou o pé direito. Achava uma atitude grosseira, arrogante, pornográfica, de mau gosto.

Então o Príncipe para encontrar a gata borralheira não obrigou todas as mulheres do principado a despirem-se diante dele e a calçar o soutien. Meteu o soutien na gaveta das recordações e decidiu fazer amor com todas, uma por uma, velhas e novas, feias e bonitas, aleijadas e não aleijadas. E foi fazendo.

Quando fez amor com a madrasta e com as duas filhas da madrasta, sentiu-se mal. Jurou para nunca mais. Porque as três eram pelintras, chupistas, feias e fidalgas. E isso tudo traduzia-se no calculismo e no fingimento com que faziam amor. O Príncipe chegou a pensar que em vez de pénis tinha um godemichet implantado no baixo ventre de tal modo a madrasta e as três filhas da madrasta o usaram e se serviram dele. Agoniado depois de fazer amor com as três, foi à casa de banho vomitar.

Na casa de banho vomitou. E encontrou a Gata Borralheira a limpar a retrete. Como o Príncipe não foi a tempo de vomitar na retrete, vomitou no chão. A Gata Borralheira limpou o vomitado sem enjoos. Porque o Príncipe e a Gata Borralheira tinham-se reconhecido mutuamente imediatamente. Não foi preciso fazerem amor porque a cumplicidade que os unia era evidente para ambos aos olhos e ao sorriso de ambos.

O Príncipe levou a Gata Borralheira imediatamente para o palácio montados ambos num mesmo cavalo branco. E a madrasta e as duas irmãs suas filhas e irmãs de Gata Borralheira ficaram por entre os vidros e as cortinas danadas e furiosas e sem perceberem nada porque eram as três tão burras que nunca percebiam nada de nada.

O soutien voltou a ser usado algumas vezes pela Gata Borralheira porque a Gata Borralheira era poupada, percebia muito de afrodisíacos e era tão fetichista como o Príncipe.

Adília Lopes
“A Bela Acordada”
in Obra, Edições Mariposa Azul

imagem: Ray Caesar