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terça-feira, março 3

«Intimate migrations»*


Nem portuense (onde [re]nasci), nem feirense, nem vilanovense (onde vivi), nem conimbricence (onde estudo), nem lisboeta (onde trabalho e "vivo"). Nem, sequer, qualquer coisa de intermédio. Fui sempre - e inteiramente - fatiada, mas a coisa começa a exceder-se. Ainda que não pudesse ser melhor recebida, uma casa que seja sua precisa-se. E com urgência!

Doris Salcedo



*Nome do novo blogue da Deidré - paragem obrigatória.

Razões para gostar de Londres (3)

Miró


e Bourgeois


[a justificar a ida à (fraquinha) Tate Modern]




Em Covent Garden, com Anne Taintor pelas prateleiras.
Quanto não vale ter amigas emigras!


E pub's com cervejas de tamanho astronómico e o mercado de Portobello e Soho e um amigo que oferece a casa e a British Library com uma exposição sobre as sufragistas e e e.
No regresso, uma certeza: desta vez, não voltarão a passar 10 anos até ao reencontro.

sexta-feira, outubro 31

Ausências*

Estudar, teorizar, investigar, fazer acções de rua, participar em conferências, debater, estar em tertúlias, apresentar comunicações, preparar comunicações, dar formação e ter as "questões feministas" subjacentes, desmistificar conceitos, questionar estereótipos.
Fazer os feminismos, assim, é de um gozo e desafio tremendos, com impactos visíveis, é certo. Mas tudo se redimensiona quando comparado com uma mulher "crescer", gostar mais de si ou chorar porque se descobre; tudo se reconfigura quando comparado com mulheres vítimas de violência doméstica a dizerem que se sentiram, ali, serenas.
Porque as cusquices se vão fazendo na rua, em aldeolas esquecidas, com mulheres esquecidas de si entre imensidões de filhos, maridos violentos ou ausentes, trabalhos dobrados, mas nem por isso pagos, ou entre palavras que não sabem escrever, os dias tornam-se impostáveis. No além virtual, sugam-se as palavras.
Sobra silêncio.
*ou retornos

quarta-feira, setembro 24

Quáse-post

Quáse sobre o festival de cinema


Não sei se foram as gargalhadas no chuecatown (que bom começar com uma história em que o centro não é a miserável vida dos gays que, coitadinhos, só sofrem!), a conversa e a música num pouco agit-ad-o bar do bairro alto, o inusitado de uma bola de berlim regada por cerveja, os pequenos almoços a inaugurar fartamente os dias ou a surpresa do obsceno (sexo explícito com humor, originalidade e - estou capaz de jurar - com a Preciado a espreitar) e a conversa que se seguiu. Não sei se foi o genuíno e caloroso acolhimento de uma casa que não me conhecia ou os cigarros no jardim de inverno. Sei, apenas, que repetiria a overdose (como alguém lhe chamou) de cinema e que quero, com lisboa, cada vez mais queerizar.


ps - com tempo, a ver se cá volto para escrever sobre o obsceno, a pornografia, Preciado e afins. Não vai ser fácil. Há quem diga que dava uma tese ;)

quarta-feira, setembro 3

E foram felizes para sempre

Queridas cuscas e cuscas das cuscas,
Preciso da vossa sábia ajuda para resolver uma pequenina questão. Claro que não é uma questão minha. Não! Nada disso. É a questão, digamos… de uma amiga.

Prólogo
Essa amiga tem um amigo desde a adolescência, com quem partilhou muitas descobertas dessa empolada fase de vida; desde a passarem férias juntos, a dar um pé de dança aos fins-de-semana, a deixarem-se atropelar pela bebida, a conversar, a encontrarem-se todos os dias no café da terrinha – que mais parecia a sala de estar das casas de cada pessoa daquele grupo de amigos – ou a ter jantares de casais [pois, esqueci-me desta parte: ele começou a namorar com uma rapariga e ela com outro rapaz]. Continuavam a encontrar-se, em grupo, a jantar juntos, a estar no café, dar uns mergulhos juntos no verão and so on.
Nunca falaram daquele verão em que uma espécie de atracção parecia meter-se entre os dois. Sempre souberam que era fruto de verão e, contraditoriamente, verde – não passaria daquilo, nem tinham realmente vontade de saber se passaria daquilo. O fruto apodreceu. Já não se lembrava(m) dele. Ela (a minha amiga, não se esqueçam) e a namorada do amigo (designação possível, já que a dita bem pode ler este blogue ou ter agentes infiltradas) davam-se bem. Sem grandes cumplicidades (que nada tinham que ver com ele), mas sentiam-se confortáveis na partilha da mesa do café ou de um jantar (um deles chegou, até, a ser em casa da tal namorada). Ela (ainda a minha amiga) deixou de namorar e, milagre dos milagres, parece ter-se transformado num monstro que criava na namorada do tal rapaz um igual monstro, mas amarelo [hum... espero que amarelo faça lembrar ciúme; bem, elas percebem]. À minha amiga, as coisas costumam passar-lhe ao lado. Dizem que é distraída; eu digo que deve ter mecanismos de defesa bem afinados e não chega a aperceber-se porque o que não lhe interessa é recalcado. Continuaram, então, a encontrar-se esporadicamente. A minha amiga notava qualquer coisa de murcho no tom do rapaz – logo ele que costumava ser exuberante e estridente – mas achou que era só naquele dia. O que não se apercebeu foi que aquele dia estava a ser todos os dias, desde há algum tempo.
Certo dia, ouviu a minha amiga dizer, ele e a namorada iam casar. Ela - a minha amiga - perguntou ao rapaz, na tal distracção que a caracteriza, se era verdade (sim, ela achava que não sabia porque podia não haver casamento marcado ou, a haver, ainda não havia convites oficiais). Ele disse que sim, num tom notoriamente mais discreto do que lhe era característico. Ela ficou admirada – ele nunca havia falado em casamento ou, a falar, fazia-o num tom de troça e de coisa-distante. Meses depois, ela (sim, a minha amiga) soube que todas as amigas do grupo (mesmo aquelas com quem a noiva não ia jantar, nem partilhava mesa de café, nem nem) tinham sido convidadas. A minha amiga – que mesmo a distracção tem os seus limites – “caiu em si”: não ia ser convidada para o casamento do amigo.


Vamos ao que interessa
Bem, a minha amiga sentiu-se um bocado estúpida: por ter perguntado se iam casar (quando eles já sabiam que não a iam convidar), por ter tentado fazer conversa com a rapariga, a ver como corria o início da vida profissional da noiva [gosto da palavra noiva! ]… enfim, sentiu-se estúpida não por não ter sido convidada (esse adjectivo era para o noivo – ele é que era seu amigo), mas por não se ter apercebido disso mais cedo e por, até se aperceber, continuar a agir da mesma forma com os dois. Agora, o que é que ela pode fazer – e aqui entram vocês:


  • Enviar um naperon bem piroso, como prenda de casamento, e um cartão todo meloso e com desejos de felicidades para eles?
  • Enviar umas algemas com pelinho cor-de-rosa, com um cartão a dizer "porque sei que gostas, querido X e porque, querida Y, também pareces gostar de o ter bem seguro"?
  • Aparecer na igreja, em trajes de fazer o vestido da noiva corar?
  • Dizer à noiva que sente uma especial e incontrolável atracção por homens casados?

Ajudem lá nos delírios da minha amiga e digam, se fosse convosco – ou com uma amiga vossa ;) – o que vos apeteceria fazer?

Imagem: Ray Caesar

terça-feira, setembro 11

Carta aberta a suposições

Queridas cuscas,

Suponham que começam um novo trabalho e que ele implica partilhar tarefas com outra pessoa. Suponham, então, que começam um novo trabalho e que ele implica partilhar tarefas com um homem. Suponham, mais uma vez, que esse homem, está convosco quase tanto tempo quanto o que passam convosco próprias.

Suponham que o homem com quem trabalham horas a fio é daqueles por quem se sente uma empatia imediata. Suponham que a empatia é rirem-se a bandeiras despregadas. Suponham que essa empatia é ressalvar o que cada um tem de melhor. Suponham que, às tantas, passam ainda mais tempo com esse homem e que no dia em que não estão juntos ele vos liga a perguntar como foi o trabalho. Suponham que vocês acham atencioso tal gesto. Suponham que retribuem. Suponham que a atracção é tudo menos física, mas não é bem intelectual. Suponham, então, que simplesmente gostam da companhia. Suponham que acham que, da outra parte, o mesmo – e só o mesmo – acontece.

Agora deixem de supor. Ele convida-vos para irem ao cinema. Vocês, supõem, que não há nada de estranho no convite. Afinal, o trabalho é ao lado do cinema. Continuem sem supor, vocês declinam o convite. E ficam a supor que a suposição de que nada haveria para supor, não deve ser assim tão linear. E começam a supor que há algo a mais do que vontade de ver um filme.

Suponham que esse homem – aquele que trabalha convosco, com quem têm empatia, com quem gostam de estar, por quem não sentem atracção e que vos convida para ir ao cinema, usa uma aliança na mão direita. Suponham que vos pergunta, de aliança na mão, se têm namorado. Suponham que vos diz que, assim sendo, já não vos convida mais para ir ao cinema porque não suporta rejeição. Suponham que esse homem que não suporta rejeição, pergunta, num almoço com mais dez pessoas, se elas acham que aceitar um não é sinal de esperteza ou de falta de persistência. Suponham que se desmancham a rir por saberem que só vocês e o homem da aliança estão a perceber o que realmente se diz.

Suponham que - persistente e com falta de esperteza - ele insinua que vos paga o café em dívida, depois do jantar. Suponham que o trabalho termina antes do jantar. Vocês riem. E ficam a supor se aquilo que ele supõe é evidência de que ele não percebeu o que vocês supuseram.

Suponham que estão tão confusas como as frases deste texto. Suponham que não sabem se se devem deixar de suposições e dizer: eu não quero mais do que ser tua amiga. Ou se devem continuar a supor que, qualquer dia – e esperam que seja já amanhã – ele se deixe de suposições.

Agora deixem de supor outra vez. O que supõem?

Imagem: Robert& Shana ParkeHarrison

sexta-feira, junho 22

My Girl

You gaze at her from across the room and think how beautiful she is. You are sure there is no-one else like her. The thought of seeing her makes you joyful with expectation. You find yourself thinking of her often and what she said or did is also often the subject of your conversations with others. You would like to introduce her to your family. You can’t believe how lucky you are to have met her. You want to share your life with her; for the two of you to grow old together. And what is more, she is one of the best friends you’ve ever had.

In fact, you are friends. Just friends. And you are two women.


Pablo Picasso, Two Women Running on the Beach


Having recently discovered the word, “bromance”, defined in the latest edition of the Collins English Dictionary as “a close but nonsexual relationship between two men” (i.e. bro[ther] + romance), I wondered about a similar term for women – and so: womance! Certainly, the feelings I have for my “girl-friends” sometimes border on infatuation; and there is an intimacy between us that can be incredibly tender and intense (without being about sex/sexual orientation) – very, very womantic…


So, if you’re in the mood for spraying on your favourite perfume, putting on your little black dress, and having a candle-lit dinner over a glass of champagne, get together with your girlfriend(s) and celebrate your true womance!