Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens

domingo, março 15

Razões para gostar de Lisboa

Cinema City, Alvalade, a projectar, em exclusivo:


e


(as imagens têm links. ide cuscar!)

terça-feira, janeiro 27

Porque o cusquices tem (des)continuidade assegurada,

dois poemas a celebrá-lo.


Hope II, Klimt

(...)
Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa.
Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa. Como a mesa.
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

Almada Negreiros

segunda-feira, dezembro 1

As danças da noite

As danças da noite

Um sorriso caiu na relva.
Irrecuperavelemente!

E como irão perder-se
As tuas danças nocturnas. Na matemática?

Tão puros saltos e espirais -
Certamente viajam

Eternamente pelo mundo, não hei-de ficar
Despida de belezas, o dom

Do teu pequeno sopro, o cheiro
A terra molhada, lírios, lírios.

A sua carne não aguenta aproximações.
Frios vincos de um ego, o narciso,

E o tigre que se embeleza a si próprio -
Sinais e uma chuva de pétalas de fogo.

Os cometas
Têm um espaço tão grande a atravessar,

Tanta frieza, esquecimento,
Assim se esfumam teus gestos -

Calorosos e humanos, depois a sua luz rosa
A sangrar e a pelar

Entre as negras amnésias do céu.
Por que me dão

Estas luzes, estes planetas
Caindo como bençãos, como línguas de luz

De seis pontas, brancas
Nos meus olhos, lábios, cabelo

Ao tocarem desfazem-se.
Em lugar nenhum.

Sylvia Plath, Ariel

segunda-feira, agosto 25


Começar, assim, não por um continente, por um país ou por uma casa, mas pela geografia mais próxima – o corpo.

Adrienne Rich

sexta-feira, agosto 15

A voz cada vez menos secreta

0. Não é nova uma crítica ao feminismo hegemónico (da mulher branca, heterossexual e de classe média) pelo seu olhar colonizador de subjectividades outras. Hoje é mais que sabido que os feminismos ditos ocidentais, não raras vezes, mais não fizeram que colar as suas reivindicações a países do sul. Ao ignorar as especificidades de cada cultura, sociedade, política, etc., muitas reivindicações acabavam por ser um duplo silenciamento das mulheres de tais países do sul, cuja voz nem sempre se considerou importante ouvir - pois estas mulheres eram (tempo verbal seguido de ponto de interrogação) tidas como exclusivamente vítimas, passivas na vontade, ignorantes da sua condição e impotentes quanto à alteração das suas condições de vida. Este silenciamento passa – e não me parece assim tão raro – pela uniformização do outro, ou das outras. E não é preciso falar de oriente para se ver essa uniformização: quantas vezes não ouvimos dizer “a mulher”? Como se as mulheres fossem uma massa invariável. Se fazemos isso com a vizinha da casa ao lado, também o fazemos com a vizinha do país menos ao lado. E o problema, para mim, é que com esse olhar se silenciam diversidades múltiplas, ricas e com potencial emancipatório. Esta lenga-lenga toda para dizer que este post não pretende ser uma denúncia das condições de vida (ou de não vida) destas mulheres do sul – é certo que a denúncia é parte fundamental dos feminismos, mas cansa-me que seja exclusiva.

(Série "Fervor, Shirin Neshat)

1. O que trago é A voz secreta das mulheres afegãs*: a poesia inseparável do canto (landays), de língua pashtun em que a presença das mulheres é activa e de onde emerge “um rosto orgulhoso, impiedoso e revoltado”; onde vemos não a submissão tantas vezes nomeada, mas uma mulher que “se indigna, contesta, alimenta a sua revolta”. Pelo canto – pela poesia – as mulheres pashtun praticam um desafio de natureza semelhante a outra forma de revelar a sua revolta - o suicídio – impondo “um acto socialmente irrecuperável” e “fatal”. As suas melodias frequentemente “pontuam as discussões à maneira de uma citação, de um ditado que expõem um sentimento ou uma ideia” e exaltam três temas: a honra, a morte, o amor. “Num meio social onde o que diz respeito à paixão e à sexualidade passa por ser estritamente tabu” as mulheres pashtun não receiam “abordar esses temas sem rodeios, com uma brutal sinceridade”, glorificando o seu corpo, o amor carnal e o fruto proibido. “Que uma mulher grite tão alto o seu amor, é socialmente um escândalo”.
Escandalizemo-nos, então.

Em segredo ardo, em segredo choro
Sou a mulher pashtun que não pode revelar o seu amor
-
Poisa a tua boca na minha
Mas deixa a minha língua livre para te falar de amor
-
Ontem à noite estive com o meu amante: uma noite de amor que não se repetirá
Como um guizo, com todas as minhas jóias, tini em seus braços até ao fundo da noite
-
Apanha lenha, acende uma grande fogueira!
É meu costume entregar-me em plena luz
-
De boa vontade te daria a minha boca
Mas porquê sacudir o cântaro? Já estou toda molhada
-
Primeiro, toma-me em teus braços, aperta-me
Só depois poderás ligar-te às minhas coxas de veludo
-
Que Deus te proíba todo o prazer em viagem
Já que me deixaste adormecida, insatisfeita
-
O meu amante quer ter a minha língua na sua boca
Não pelo prazer, mas para afirmar os seus direitos sobre mim
-
Irmãs, atai os vossos véus à cintura
Pegai em armas e ide para o campo de batalha
-
À meia-noite a lembrança de ti é a única visita
Que me atormenta e não me deixa dormir
-
O meu amante é hindu e eu maometana
Em nome do amor, varro os degraus do templo interdito
-
Se dormes, só terás poeira
Eu pertenço aos que, por mim, não dormem a noite inteira
-
O meu amor prefere as flores sensatas dos jardins
Mas eu, tulipa selvagem, desfolho-me na planície sem fim
-
Olhai do esposo a horrível tirania:
Bate-me e proíbe-me de chorar

*Majrouh, Sayd Bahodine (2005) A voz secreta das mulheres afegãs. O suicídio e o canto. Lisboa: Cavalo de Ferro (tradução portuguesa de Ana Hatherly).

sexta-feira, junho 6

Só boas notícias


  • O primeiro doutoramento em Estudos Feministas em Portugal arranca em Setembro na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC), revelou hoje à agência Lusa a coordenadora executiva do programa.
    (...) As candidaturas começaram segunda-feira e decorrem até 25 de Julho, segundo o sítio na Internet, disponível em http://www1.ci.uc.pt/geaa/ ...

  • O Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (APE) foi atribuído ao livro "Entre dois rios e outras noites", de Ana Luísa Amaral. ...

quarta-feira, maio 21

a tongue of (no) one's own

Every owner of slaves shall, wherever possible, ensure that his slaves belong to as many ethnolinguistic groups as possible. If they cannot speech to each other, they cannot then foment rebellion and revolution.

...

but I have
a dumb tongue
tongue dumb
father tongue
and English is
my mother tongue
is
my father tongue
is a foreign lan lan lang
language
l/ anguish
anguish

...

Nourbese

quarta-feira, março 26

Gramáticas do Olhar

Cruzar olhares será tarefa fácil,
mas não trocar de olhar;

Em foco: um outro ponto, do avesso,
em avesso: outra luz
outra paisagem
como de um outro azul,
um brilho outro,
um céu rasgado a nuvens
de outra cor

Cruzar olhares será tarefa breve,
trocar de olhar: uma forma de pôr
um palco de deserto, antes miragem:
agora uma viagem
sem regresso

- que a troca: irreversível:

uma forma de excesso devolvido
ao espaço inabitado
por igual

cruzar olhares: uma tarefa curta
(A outra:
a mais gramatical
forma de amar)

Ana Luísa Amaral




a partir da poesia de Ana Luísa Amaral

está em cena o espectáculo "O Olhar diagonal das coisas"

Biblioteca Municipal Florbela Espanca, Matosinhos
28, 29 e 30 de Março de 2008, 21h 30

Entrada Livre




sexta-feira, junho 22

Eis-nos

Eis-nos de luta
expostas
sem vencer os dias

as verilhas
certas
no passo retomado

o rever das casas e das causas
o revolver das coisas
que dormiam

Diária é a escolha
o movimento insano
o sossego manso e mais pesado
daquilo que desperta e não quebramos

daquilo que rasgamos
e dobramos
carta por carta em seu perfil exacto

Fêmeas somos
fiéis à nossa imagem
oposição sedenta que vestimos
mulheres pois sem procurar vantagem
mas certas bem dos homens que cobrimos

E jamais caça
seremos

ou objecto
dado

nem voluntário odor
de bosque seco

vidro dizemos
pedra
caminhada

em se chegar a nós
de barca
ou vento

Remota viração que se reparte
esta que usamos em cumprir
sustento

de pressuposta amarra
em que ficamos

apartadas dos outros
e tão perto

Maria Isabel Barreno
Maria Teresa Horta
Maria Velho da Costa
in Novas Cartas Portuguesas


terça-feira, junho 12

Mulher Dobrada

A mulher
que não canta
entretanto
cantá-la-emos

A sua mesa
quando utiliza
a fome
em forma de utensílio
ou de produto
sobre o tampo

À falta de uso
a voz
como o palato
alastra

Só uma mulher
a que cantamos
soa


Cantemos
por a tolher
o pranto
dobrada
sobre o tampo
que a magoa.

Fiama Hasse Pais Brandão
in Nome Lírico



quarta-feira, fevereiro 14

AMAR!!

Amar

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...


Florbela Espanca


Porque ouvi;
Porque li;
Porque foi mulher que sentiu e escreveu;
Porque é lindo e eu gostei!!