A voz cada vez menos secreta
(Série "Fervor, Shirin Neshat)
Em segredo ardo, em segredo choro
Sou a mulher pashtun que não pode revelar o seu amor
Mas deixa a minha língua livre para te falar de amor
Apanha lenha, acende uma grande fogueira!
É meu costume entregar-me em plena luz
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De boa vontade te daria a minha boca
Mas porquê sacudir o cântaro? Já estou toda molhada
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Primeiro, toma-me em teus braços, aperta-me
Só depois poderás ligar-te às minhas coxas de veludo
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Que Deus te proíba todo o prazer em viagem
Já que me deixaste adormecida, insatisfeita
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O meu amante quer ter a minha língua na sua boca
Não pelo prazer, mas para afirmar os seus direitos sobre mim
Irmãs, atai os vossos véus à cintura
Pegai em armas e ide para o campo de batalha
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À meia-noite a lembrança de ti é a única visita
Que me atormenta e não me deixa dormir
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O meu amante é hindu e eu maometana
Em nome do amor, varro os degraus do templo interdito
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Se dormes, só terás poeira
Eu pertenço aos que, por mim, não dormem a noite inteira
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O meu amor prefere as flores sensatas dos jardins
Mas eu, tulipa selvagem, desfolho-me na planície sem fim
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Olhai do esposo a horrível tirania:
Bate-me e proíbe-me de chorar
*Majrouh, Sayd Bahodine (2005) A voz secreta das mulheres afegãs. O suicídio e o canto. Lisboa: Cavalo de Ferro (tradução portuguesa de Ana Hatherly).
