segunda-feira, janeiro 8

Arte feita pelas mulheres (1)

A selecção das artistas que configurarão nesta série responde, naturalmente, a critérios aceites por teóricos da arte. Mas, dentro dessa selecção, existirá uma outra que corresponde a juízos valorativos individuais. Às minhas preferências, está visto.Posto isto, apresento-vos:


Barbara Kruger
n. em 1945 em Newark; vive e trabalha em Nova Iorque e Los Angeles.



Esta artista utiliza sobretudo fotomontagens que figuram em placards, instalações de parede, livros, cartazes em autocarros e outros suportes. Kruger recolhe imagens dos meios de comunicação social e dá-lhes um novo contexto, um novo significado. A essas imagens adiciona textos que pretendem subverter mensagens que a cultura capitalista bombardeia constantemente.





Sendo também escritora, Barbara Kruger (B.K.) foi responsável por alguns dos textos mais fortes do "feminismo estético", denunciando e criticando o falocentrismo [característica das sociedades que não só estão dominadas pelo macho (portador do falo) como o preconiza como valor e referência absoluta] nas tradições figurativas e gestuais e nas representações do corpo da mulher - visto como objecto de troca/capitalizado.





Os trabalhos desta activista foram altamente impulsionados pela teoria – que ela própria desenvolvera – de que as mensagens latentes nos média (tal como no cinema) procuram a normalização dos sujeitos (para irem ao encontro dos seus propósitos ideológicos, económicos e sociais); e que são (também) essas mensagens/representações responsáveis pela percepção que temos do sexo feminino (e masculino), bem como do género.


Para travar esta difusão estereotipada, B.K. procurou, em toda a sua obra, desconstruir estas mensagens/representações.


Nas imagens que agora vemos, B.K. utiliza sobretudo os pronomes pessoais "eu"(I), "vós", "tu" (you), "nós"(we), em vez de dizer "a mulher" ou "o homem". E fá-lo deliberadamente para recusar o alinhamento com o género; para permitir que qualquer pessoa (mulher/homem) se identifique com a mensagem, precisamente porque, diz-nos Kruger, a masculinidade e feminilidade não são identidades estanques, mas, antes, objecto de mudança.



Nas suas exposições/instalações espaciais, Kruger usa as paredes, o chão e o tecto como veículos de imagens e textos omnipresentes e de grande formato, cobrindo normalmente toda a sala, excluindo qualquer possibilidade de se "desviar o olhar" - como mostra a fotografia.




Para terminar, um trabalho recente de Barbara Kruger:

... porque a mensagem inerente me parece mais do que apropriada (dada a actualidade política do nosso país – pelo menos quanto à primeira frase).

... e porque é reveladora da força imagética e ideológica da arte de Kruger.

...



Tradução livre das imagens, por ordem de apresentação:
1. Compro, logo existo
2. O teu corpo é um campo de batalha
3. Tu não és tu própria/ próprio
4. Nós não precisamos doutro herói
5. Imagem de parte de uma instalação
6. Pró-vida para os por nascer/ Pró-morte para os nascidos

Mais sobre B.K. aqui
E se ficaram curiosos/curiosas, nada como ir a Serralves ("Anos 80: uma tipologia", onde encontrarão uma obra de Kruger e de outras artistas que aqui vamos mostrar, bem como na exposição que está na biblioteca da fundação: "Corpo como utensílio").






5 comentários:

Aristóteles disse...

Gostei muitíssimo do post, e acho curiosa a tendência (que não é só dela) em utilizar outdoors, páginas de anúncios em revistas e estéticas declaradamente publicitárias para construir uma “arte comprometida”. A arte, assim, reconstrói-se no quotidiano para o abalar. É interessante ver como uma crítica dos valores tradicionais escolhe precisamente os mais convencionais órgãos de difusão desses valores para os desactivar, para os acusar e pôr a nu. É irónico, no melhor sentido do termo!

Safo disse...

Para mim, este tipo de trabalhos desvendam as consequências do tal falocentrismo a que a arte não foi alheia. Repare-se que a arte contemporânea é uma arte da invisibilidade, da não figuração, do desaparecimento do sentido quotidiano do “objecto”. Porém, quando é o corpo da mulher que está em causa, é muito difícil fazer desaparecer a sua funcionalidade tradicional: ele é erótico, carnal, objectivado como lugar de desejo – ele aparece assim a quem vê… Ora, se não lhe é permitido “desaparecer”, a mulher está necessariamente excluída deste tempo; a mulher não pode ser contemporânea!

Alien David Sousa disse...

Já conhecia o trabalho da Barbara Kruger. Muito bom, teres divulgado aqui esta grande "SENHORA".
bjs

LR disse...

muito bom este post e a ideia de divulgar arte por mulheres ou vice-versa.
parabéns pela iniciativa. por mim já valeu a pena, não conhecia esta senhora.

cuscavel disse...

Obrigada pelos vossos comentários. Fico realmente satisfeita por terem gostado. Motiva para o próximo :)