segunda-feira, fevereiro 12

Mulheres contra Mulheres (2)


Sem REIno
Saibamos não temer a luminosidade das rainhas singulares
para deixarmos, enfim, a sombra do REInado.




Analisadas possíveis causas e avançadas algumas formas de contornar este "reino de divididas", é chegada a altura de aproximarmos a lupa e tentarmos decifrar acções concretas e simples que nos proporcionarão uma convivência mais saudável e solidária.

E onde quer que a lupa nos prenda o olhar, solidariedade é a palavra focada, iluminando o percurso que permite abandonarmos a sombra do REInado.

Mas como traduzir, na prática, esta ambicionada solidariedade?
Eis algumas propostas:

1. Ter presente que os homens não são, por definição, mais importantes que nós. O que nos permitirá apoiarmo-nos orgulhosamente umas nas outras. (Shere Hite)

2. Sermos cúmplices e capazes de reconhecer autoridade na (outra) mulher. (Elena Simón)

3. Sabermos reconhecer o valor de uma mulher e renunciar ao "sim, mas…" que normalmente acompanha o "elogio", camuflando a inveja, o ciúme, a rivalidade.
Exemplo do "sim, mas…":
- Aquela mulher é muito bonita
- Sim, mas também tem dinheiro para se cuidar…


4. Adoptar uma atitude solidária acima das antipatias, podendo resultar num pacto de silêncio. Algo como: "Eu, pessoa do sexo feminino, estou disposta a não criticar nenhuma acção ou decisão tomada por outra pessoa do mesmo sexo, a não ser que extravase certos limites que um ser humano não deve ultrapassar". (Amélia Valcárcel)


5. Não ocultar a rivalidade e a competição - já que tal contribuiria para exacerbar as tensões e a agressão entre as mulheres. (Marcela Lagarde). Sermos, antes, francas mas numa óptica construtiva: "Dir-lhe-ei clara e serenamente o que na sua conduta me perturba. Mas só se essa conduta for mais prejudicial para ela do que para mim".

6. "A história do patriarcado é uma história de exclusões, a história da ocultação das mulheres." Há, pois, que renunciar ao papel de órfãs, conhecendo, revelando, nomeando e orgulhando-nos das mulheres da História. (Gioconda Belli). "Diminuímos a misoginia de cada vez que reconhecemos os contributos das mulheres" (Carmen Alborch)


7. Conhecermo-nos, valorizarmo-nos individualmente, abandonando os mecanismos de constante auto-avaliação. O desenvolvimento colectivo só é possível a partir do desenvolvimento individual. (Victoria Camps)

8. Reconhecer que ser solidária não é ser dependente; não é entregarmo-nos incondicionalmente e subordinarmo-nos aos interesses alheios. Será, antes, sublinhar o princípio: "Tenho algo para dar e posso receber algo" (Marcela Lagarde)

9. Aprender a discordar sem misoginia. Reconhecer, em igualdade, que somos diferentes.


10. 11. 12. 13... Existirão, seguramente, muitas outras propostas (alguém tem ideias?). Mas, ainda assim, nenhuma delas poderá prometer a solidariedade. Este é um destino complexo, em que não cabem princípios universais.

Independentemente de não encontrarmos "receitas" para a solidariedade, esse ambicionado destino só poderá alcançar-se com passadas firmes. E a firmeza dos passos, essa sim, poderá ser generalizável a propostas como estas.

Caminhemos, pois!

10 comentários:

DomingonoMundo disse...

Apetece comentar ponto por ponto, mas, à falta de tempo e espaço, começo pelo 6:

«"A história do patriarcado é uma história de exclusões, a história da ocultação das mulheres." Há, pois, que renunciar ao papel de órfãs, conhecendo, revelando, nomeando e orgulhando-nos das mulheres da História.»... É realmente urgente, mas, para isto, é necessário que escola, cultura, instituições... mudem e sejam, por sua vez, motores de mudança. São elas as principais responsáveis pela reprodução de tais exclusões.

É uma evidência, mas não deixa de ser uma evidência verdadeira!...

LR disse...

Parabéns. Este post está brilhante, gajas. É mesmo isso!

Taxi Driver disse...

Solidariedade?! O feminismo ultrapassa os limites da sanidade, precisamente quando surgem estes clichés.
Uma mulher tem que saber estar como pessoa. Uma mulher tem que saber lidar com as pessoas, sejam elas mulheres ou homens. Uma mulher é igual a um homem e apenas se distingue pela sua individualidade que tanto ela como qualquer mulher e qualquer homem deverão ter. Uma mulher não deve ser solidária com outra pessoa só porque ela é mulher. As mulheres, como os homens, conseguem ser idiotas, estúpidas, traiçoeiras, maldosas e etc. E é esta união ridícula, para o que der e vier, que torna o feminismo a coisa mais chata que há.
Vivemos num mundo de homens, é verdade. Mas dizer que as mulheres se devem unir para se safar é ambicionar um mundo de mulheres que, certamente será tão chato como este... E talvez mais cor-de-rosa! LOL

Grace disse...

Muito oportuno, destemido e útil! Sim senhoras!

cuscavel disse...

domingonomundo, espaço há. Arranja tempo! Ficamos à espera.

lr e grace, obrigada (mais uma vez) :)

taxi driver, ficamos, honestamente, satisfeitas quando alguém não vê qualquer necessidade nestes princípios, parecendo até que "ultrapassam os limites da sanidade". Mas a nossa realidade é outra. E, por isso, continuamos/ continuaremos… insanas!

Taxi Driver disse...

Eu não digo que os princípios não são necessários. O que digo é que conversa desta de: "Vamos ser amigas e ajudar-nos muito" - já fodeu muita gaja pelas costas e já levou gajas incompetentes a lugares de responsabilidade. As gajas querem ser todas responsáveis por isso?! Parece-me que não!
Há que deixar os dogmas e aprender a justiça e IGUALDADE, no verdadeiro sentido da palavra.

cuskiss disse...

Eu acho sinceramente que na prática isso não acontece! Cada vez mais é cada um por si. Impera o egoismo...

Beijokas

Dirim disse...

Obrigada por este post. Embora perceba perfeitamente o princípio da Taxi Driver - com o qual concordo (somos todos seres humanos e como tal em muita coisa, homens e mulheres não se distinguem) há, efectivamente, uma segregação intrapares no que às mulheres se refere. Porque, tal como referiram anteriormente, a construção e manutenção do poder do patriarcado se faz disto também (com a cumplicidade das mulheres): dividir para reinar. Bourdieu explica bem as questões dos grupos dominados compactuarem com as estratégias de poder do grupo dominante.

cuscavel disse...

Taxi driver, as gajas não querem essa responsabilidade! :) E é por isso que em nenhum ponto se insinua sequer que promovamos a incompetência só porque ela se diz no feminino.

Cuskiss, sou redundante mas nem tanto! Se isto se verificasse na prática, poupava-vos o post. ;)

Quanto a Bordieu, dirim, há uma afirmação que ilustra bem o propósito destes posts (mulheres contra mulheres): “Os grupos dominantes impõem os seus valores aos dominados que interiorizando-os transformam-se em artesãos da sua própria dominação”. Muito bem recordado!

Obrigada a todas pelos comentários!

Alien David Sousa disse...

Grande Post. Gostei bastante.
Li com atenção Cuscavel e inserindo este tema na sociedade portuguesa o que veja mais à minha volta é o : "sim, mas…"
É aflitivo. Mesmo. Parece que existe um mecanismo, um Chip, inserido no corpo das mulheres que as impede de elogiar outra sem de seguida lhes dar uma paulada. É como fazer uma festinha e logo de seguida dar um murro.
O mais estúpido no meio disto tudo é que não vê-mos isto acontecer no mundo masculino. Eles quando elogiam outro homem, elogiam e ponto final.
Será que as mulheres são assim tão inseguras? Reformulando: seremos assim tão inseguras? Pessoalmente não tenho e nunca tive problemas de elogiar colegas minhas. Já tive de contratar pessoas para trabalharem comigo e até puxei pelas mulheres que muitas vezes são prejudicas e vão mais nervosas para as entrevistas. Não tive problema nenhum em lhes dar a entender que podiam estar mais calmas apesar de ao meu lado estar um homem também a conduzir a entrevista. Nunca as vi como potenciais rivais. E é aqui que queria chegar. Muitas mulheres entram nesta guerra "mulheres contra mulheres" porque encaram as outras como rivais. Não como aliadas. E isto é uma estupidez. Enquanto os homens se unem. As mulheres lutam umas contra as outras.
Sei que o que estou a dizer não é nada de novo. E também sei que não é do dia para a noite que as coisas vão mudar. A nossa geração pode ajudar. Mas mesmo assim, coloco reticências. Trabalho com pessoal muito jovem. E continuo a ver mulheres a tramarem mulheres. Não o entendo. Unidas seríamos uma "potência".
As mulheres que chegam a algum lado, são aquelas que no mundo do trabalho se afastam das mulheres. Que não entram nos jogos dos "almoços" e que se concentram no trabalho e isto é triste.
As mulheres com as quais podemos contar verdadeiramente são as nossas amigas, e as nossas mães.
Porque quanto ao resto. A guerra vai continuar. Enquanto as mentalidades não forem mudadas. Enquanto as mulheres não acordarem. Porque estão a dormir, ai que estão, estão!
Beijos alienígenas